Sonho Chinês

 

Conceito American Dream emigrará para a China?

Face ao surgimento da China como uma potência mundial a todos os níveis, especialmente tecnológico, económico e industrial, torna-se interessante discutir o seu papel na atualidade tanto global, interações com outros países, como particularmente, no caso da relação com Portugal. Esta relação é muito discutida na sociedade pelo investimento massivo no nosso país alocado por investidores chineses.

Deste modo, começaremos a analisar a relação com Portugal, seguindo-se a posição da China no mundo e estratégias futuras da potência.

 

Breves insights acerca da China

Poder-se-ia pensar que a relevância económica da China poderia estar a diminuir ou que o crescimento das últimas décadas não seria sustentável no futuro. A verdade é que os dados provam o contrário e, segundo o PIB real de 2017, o país cresceu 6,9% face ao período homólogo. De acordo com o nominal, este aumento ainda foi mais acentuado- situando-se nos 13%.

De facto, a economia chinesa é duas vezes e meia maior do que a japonesa, cinco vezes maior do que a da Índia, seis vezes maior do que a do Brasil e oito vezes maior do que a da Rússia. Também é maior do que toda a Zona Euro.

 

Consequências negativas da expansão industrial

O acelerado crescimento industrial da China, intensificado com as reformas de 1978, vem acompanhado de prejuízos ambientais significativos- como o aumento da poluição e a degradação dos recursos naturais.

Em 2007, segundo o Banco Mundial, 16 das 20 cidades mais poluídas do mundo ficam na China. A poluição da água afeta 75% dos rios e lagos chineses, 90% das águas subterrâneas urbanas e 28% dos rios são tão tóxicos que não servem nem para o uso agrícola. A qualidade do ar é também altamente afetada, apenas 1% de 560 milhões de habitantes de algumas cidades do país respiram ar puro. Por esta razão, as doenças respiratórias e cardíacas são as principais causas de morte na China.

Do ponto de vista do crescimento populacional, mesmo tendo em conta a política do filho único, projeções afirmam que a população deverá aumentar entre 1,4 e 1,6 biliões entre 2025 e 2050. Haverá desafios a enfrentar com a expansão demográfica e constante desenvolvimento económico e industrial, consequências para o aumento de gases poluentes e  consumo de energia.

Apesar deste histórico de acontecimentos, a China planeia transformar-se o mais rapidamente possível numa sociedade ambientalmente sustentável, deixando de ser um país basicamente industrial e de processamento de matéria-prima. Contudo, existe oposição política que pensa que as rígidas medidas de proteção ambiental atrasariam o crescimento económico e, por isso, tem sido complicado para o governo chinês impor medidas restritivas.

Esta discussão tem merecido atenção especial por vários órgãos internacionais, pois a questão ambiental vivida na China afeta não só o território deste país como aqueles que ficam além-fronteiras.

 

Relação Portugal – China

No início deste mês de dezembro, Portugal recebeu o chefe de Estado chinês, Xi Jinping. Durante esta visita os governos de ambos os países assinaram 17 acordos bilaterais, envolvendo, sobretudo, as áreas financeiras e empresarial, com destaque para o memorando de entendimento sobre a iniciativa chinesa de investimento “Uma Faixa, Uma Rota”.

O investimento chinês em Portugal tem sido uma constante nas últimas décadas. Segundo diversas notícias, Portugal é o segundo país da Europa com maior investimento direto da China.

Como sabemos em muito têm contribuído, nos últimos anos, as compras de participações de capital em grandes empresas portuguesas – como a EDP, REN, Fidelidade e Millennium BCP.

Na área económica foi assinado um memorando relativo à cooperação em matéria de comércio de serviços. Este será um dos pontos de diálogo bilateral de uma comissão mista económica, abrangendo áreas como transportes, finanças, propriedade intelectual, tecnologia ou cultura.

No âmbito empresarial foram assinados vários acordos. Entre eles está a implementação em Portugal do STARLAB – um laboratório de pesquisa de tecnologia avançada nos domínios do mar e do espaço. O presidente da EDP, António Mexia, e o líder da China Three Gorges (CTG), Lei Mingshan, assinaram um “instrumento que define a cooperação ao nível da responsabilidade social das empresas, designadamente no domínio da cultura, desenvolvimento sustentável, inovação e R&D”. A CTG detém 23,27% do capital da EDP e, com a OPA que anunciou em maio, propôs-se obter pelo menos 50% mais uma ação da empresa. Somando ao capital da CTG os 4,98% detidos pela CNIC Corporation, o Estado chinês já controla 28,25% da EDP. A State Grid e a REN assinaram um acordo com vista ao desenvolvimento da investigação em energia, projetos de interconexão entre Portugal e Marrocos, e ainda a criação de um programa de estágios internacionais.

Ainda a nível empresarial, o Banco Comercial Português, que tem como principal acionista, com 27,06% do capital, o grupo privado chinês Fosunassinou um acordo com a Union Pay. O banco poderá passar a “emitir cartões de crédito” desta entidade, tornando-se o primeiro distribuidor não-chinês de cartões Union Pay na Europa, com exceção da Rússia.O acordo entre a MEO e a Huawei visa o desenvolvimento da tecnologia 5G, tendo em vista permitir um aumento qualitativo do acesso à rede de banda larga móvel e comunicações com maior fiabilidade.

Estas medidas vêm fortalecer a relação entre Portugal e a China e afirmar a posição dos chineses nas empresas do nosso país. O Presidente da China, durante a sua estadia, prometeu o reforço dos projetos existentes com Portugal e defendeu o multilateralismo, o livre comércio e a paz, numa declaração conjunta com o primeiro-ministro António Costa.

 

Guerra comercial entre China e EUA

Estados Unidos da América e China, os países com as maiores economias do planeta, têm estado envolvidos numa guerra comercial que tem assustado os mercados e que, a agravar-se, pode ter consequências para todo o mundo.

Os EUA aumentaram as taxas alfandegárias de importações provenientes da China no valor de 250 mil milhões de dólares. Primeiro, aplicaram uma taxa de 25% em 50 mil milhões de dólares de produtos e, depois, uma taxa de 10% em 200 mil milhões de dólares, agendando uma subida para 25% nestes produtos para o próximo dia 1 de Janeiro.

A China, por seu lado, retaliou com subidas de taxas nos produtos norte-americanos, o que levou a que Donald Trump ameaçasse com a possibilidade de alargar as suas medidas a todos os produtos importados da China.

Explicitar este contexto torna-se interessante, no sentido de demonstrar um dos principais entraves ao “sonho chinês” que aqui abordamos. Mesmo não afetando diretamente, ainda, os cidadãos europeus, sabe-se que obter vistos, nos EUA, para viajar para a China tem sido complicado. Com isto, dificultam-se as transações comerciais e criação de empresas na China através de IDE.

 

Made in China 2025

Lançada em maio de 2015, pelo primeiro-ministro chinês Li Keqiang, a estratégica “Made in China 2025” tem o intuito de guiar a modernização industrial do país, o que inclui substituir toda a tecnologia estrangeira por tecnologia produzida no país. Com isto, a China pretende subir na cadeia de valor mundial focando-se mais na qualidade da produção do que na quantidade.

Miao Wei, ministro chinês da Indústria e da Tecnologia de Informação, descreve os conteúdos da “Made in China 2025” como “um, dois, três, quatro, cinco, cinco, dez”.

O “um” simboliza o objetivo desta estratégia: tornar a China na superforça mundial. O “dois” demonstra a interação necessária entre os dois domínios deste ministério (indústria e tecnologia de informação). O “três” significa os passos necessários para atingir o objetivo: (1) ser reconhecido à China o título de super produtor mundial até 2025; (2) atingir o nível superior de produção relativamente aos outros países até 2035; (3) confirmar essa mesma superioridade e aumentá-la até 2049, ano em que se celebra o 100.º aniversário da República Popular da China. O “quatro” são os princípios desta estratégia: ser guiada pelo governo e orientada para a realidade do mercado, ser baseada no presente mas pensado no futuro, fazer progressos constantes nas áreas abrangidas e tornar a China independente no desenvolvimento. O primeiro “cinco” representa as cinco linhas orientadoras deste projeto, enquanto que o segundo “cinco” representa os seus cinco sub-projetos. O “dez” é uma referência às dez áreas-foco desta estratégia, mais aprofundadas seguidamente.

 

Com o propósito de se tornar o mais autossuficiente possível, esta estratégia está focada em 40% da produção chinesa, divididos em dez indústrias estratégicas, como mostra a imagem anteriormente. A par com esta tentativa de aumentar ainda mais a quota de mercado preenchida por produção nacional, a “Made in China 2025” pretende também aumentar a investigação e o desenvolvimento doméstico e liderar no campo da inteligência artificial (projeto iniciado com esta estratégia, mas que deve ser concluído apenas em 2030).

A China tem o maior número de utilizadores de telemóveis e de internet, registando 800 milhões em cada um. Como consequência de um elevado número de utilizadores, surgem quantidades elevadas de criação de dados, área muito focada nesta estratégia.

A partir do seu aparecimento como grande produtor mundial, a China foi sempre associada a produtos copiados, de baixa qualidade e, consequentemente, de baixo valor. No entanto, esta tendência está a mudar, a China está a passar para patamares de inovação nunca antes vistos. A nível mundial, estes efeitos já se fazem sentir como, por exemplo, pelo facto de ser um dos maiores produtores de peças para os produtos da Apple Inc., de liderar mundialmente no e-commerce (tema já discutido num jornal JBC), nos pagamentos digitais, em FinTech e em Big Data.

Esta enorme modernização chinesa, consequente do domínio económico que adquiriu ao longo dos anos, é excelente de poder acompanhar e entender os seus contornos e ambições para o futuro. De diversos artigos disponíveis online coube-nos avaliar as possibilidades que a potência oriental pode oferecer a quem lá quiser criar valor acrescentado e mais valias dentro das motivações do Made in China 2025 e acordos bilaterais celebrados com Portugal.

Os EUA permanecerão com o seu estatuto de impulsionador do capitalismo e que, se se trabalhar com afinco, todos as ambições se tornarão realidade. Porém, quando comparados os indicadores económicos das duas potências, depreendemos que a China, mesmo tendo um regime político distinto, capta a atenção não só pela sua rápida evolução como há empresas fascinadas com o modo como é estimulada a inovação e desenvolvimento, nomeadamente no campo tecnológico. A China “apanhou” os EUA num curto espaço de tempo e isso pode ter assustado este último de tal forma que impôs tarifas. Mas, se a China continuar a crescer, qualquer indivíduo passará a olhá-la ainda mais como uma chance de desenvolvimento profissional.

Por último, salientamos a valorização do yuan que, segundo Juan Zarate, que ajudou a implementar sanções financeiras contra a China enquanto servia no Departamento de Tesouro de George W. Bush, “uma vez que [o yuan] se torne uma alternativa ao dólar, as regras do jogo começam a mudar”. De olhar com atenção para as possibilidades que a China nos pode oferecer e não a vermos só como investidor externo.

 

Research elaborado por António Raimundo, Bernardo Ermitão, João Carrilho e Miguel Duarte
Edição: Margarida Alves