Empresas Familiares

 

Como preparar as próximas gerações numa aldeia global

As empresas familiares desempenham um papel muito importante na economia global. Gersick et al. (1998) menciona que “entre 65% e 80% das empresas a nível mundial são familiares, desde as mais pequenas às mundialmente conhecidas”.

Se pensarmos no contributo destas empresas para o crescimento de emprego e no contributo em milhões de euros para a balança comercial e, consequentemente, para o PIB temos uma noção da sua relevância. Cerca de 60% do emprego e 50% do PIB nos EUA é assegurado por empresas familiares.

Factos apurados até ao momento, indicam que, no geral, estas empresas têm vindo a sofisticar-se bastante, especialmente aquelas que apostam mais em inovação. Uma vez que empresas familiares estáveis, bem geridas e que apostem no futuro são tão importantes para o desenvolvimento da economia e da sociedade, em geral, que se torna importante perceber quais são as suas dinâmicas de funcionamento.

Assim, neste Research vamos procurar entender:

  • O que são as Empresas Familiares;
  • Que importância têm na economia do nosso país, incluindo nos mercados financeiros;
  • Onde estão e como atuam;
  • Como tendem a preparar a continuidade do seu negócio.

 

Quando se fala em empresas familiares geralmente pensamos em pequenos negócios, simples e com poucas perspetivas de crescimento. Porém, esta ideia está completamente errada. Em Portugal, empresas como o Grupo Sonae, Grupo Amorim ou Jerónimo Martins podem ser consideradas empresas familiares e, como sabemos, são empresas de extrema importância para o mercado do nosso país.

 

Peso em Portugal

As empresas familiares representam uma grande parte do tecido empresarial português, com empresas para além da 3º Geração. Estas representam cerca de 70% a 80% das empresas portuguesas, contribuindo, aproximadamente, com resultados que representam 60% PIB português.

Para além disso, estas empresas são um forte dinamizador económico português, gerando altos níveis de emprego, sensivelmente 50% do emprego em Portugal, “Os negócios familiares representam um contributo essencial para as economias europeias e para o emprego”, referiu Anthony Attia, presidente da Euronext Paris.

Poder-se-ia pensar que o perfil mais conservador das empresas familiares seria um entrave ao crescimento económico, e que tais nunca atingiriam os resultados das não familiares. Efetivamente, em períodos de crescimento económico o seu desempenho é inferior, todavia, no longo prazo é onde ganham terreno em relação aos seus pares. No longo prazo empresas familiares proporcionam as maiores receitas e crescimentos, em todas as regiões e setores. Tal deve-se à perspetiva de longo prazo que adotam, com uma grande aposta em I&D.

 

Peso na EURONEXT

A Euronext possui um índice bolsista específico para empresas familiares – Euronext Family Business Index, possibilitado pequenas, médias e grandes empresas do ramo familiar de recorrerem ao mercado de capitais para financiamento. São 229 os empreendedorismos familiares cotados na bolsa europeia.

Tendo em conta a informação recolhida pelo Credit Suisse, a parcela portuguesa de empresas familiares está muito bem representada na bolsa europeia. Cerca de 7 empresas familiares estão cotadas junto das maiores do mundo. A reduzida dimensão do mercado português tem um peso de, sensivelmente, 3.5% neste índice.

Entre elas encontram-se a Jerónimo Martins, Semapa, Galp Energia, Mota-Engil, Sonae, Grupo Impresa e a Corticeira Amorim. Estando estas juntas de empresas como a AB Inbev, Peugeot, Michelin e L’Oréal.

Destas 7 empresas, 6 delas encontram-se no ranking das mil maiores empresas familiares do mundo, segundo o relatório “The Credit Suisse Family in 2018”, totalizando uma avaliação bolsista no valor de 31 mil milhões de euros.

Destas destaca-se a Semapa, dona da Portucel, Navigator e Secil, que atualmente se encontra no top 20 da lista das melhores cotadas na EURONEXT, 16ª posição. A sua excelente performance levou a uma elevada rentabilidade dos dividendos, em comparação ao restante setor europeu, com retornos de 21% nos últimos 3 anos e 22% nos últimos 5 anos, com uma excelente perspetiva de longo prazo. Verificando, assim, uma das melhores prestações na praça lisboeta.

 

Internacionalização das Empresas Familiares

À partida, a entrada num novo mercado por parte de uma empresa do tipo familiar é facilitada com o maior conhecimento do seu negócio, ter os valores da empresa mais enraizados, haver uma maior cumplicidade e cultura de grupo e uma maior perspetiva de longo prazo. Estas vantagens devem-se ao objetivo de passar o negócio de geração em geração, pelo que nenhuma destas características se tende a perder com a mudança de direção.

As empresas familiares têm um peso bastante significativo no PIB português, no entanto, depois de conquistarem o mercado nacional, o próximo passo lógico será a aposta na internacionalização. Esta fase requer especial atenção, pois há todo um conjunto de barreiras que têm de ser ultrapassadas para que as empresas tenham sucesso no estrangeiro e, simultaneamente, mantenham a qualidade dos produtos e/ ou serviços no mercado interno.

Tendo em conta os tipos de empresas familiares- se a empresa é totalmente gerida pela família ou se tem uma administração/ gerência que gira a empresa- podem prever-se alguns pontos fortes e alguns entraves à internacionalização.

No caso das empresas totalmente geridas pela família, o facto de o património pessoal e lucros serem investidos sob a forma de autofinanciamento, a aversão ao risco não constitui a maior barreira à internacionalização; na medida em que, caso essa falhe, o investimento perdido é apenas o capital próprio e não um empréstimo que incorreria numa obrigação futura mais pesada.

Porém, com o desejo/ objetivo de garantir que o negócio permanece na família, a internacionalização pode ser atrasada para segundo plano, adiada para a próxima geração ou ser desenvolvida de forma muito lenta e pouco eficiente.

Ora, este último ponto não se coloca quando a gestão é feita por uma administração/ gerência independente da família. De forma geral, quanto maior for o grau de envolvimento da família na tomada de decisão, mais lento será o processo de diversificação de mercados.

Tomando por base tudo o que foi referido anteriormente, pode generalizar-se que as empresas do tipo familiar que pretendam dar início a uma política de internacionalização devem incorporar, pelo menos, na sua direção elementos externos à família e devem providenciar a formação necessária, principalmente ao nível da experiência internacional, à próxima geração para continuarem a seguir a expansão para mercados externos.

Tudo isto tem como objetivo potenciar este processo de exportação e aumento da quota da empresa nos mercados estrangeiros, através da aplicação sustentável dos recursos da empresa e levar a uma presença mais forte e regular noutros mercados.

 

Principais áreas de atuação

Segundo o relatório “Empresas Familiares da Região Norte”, realizado a setembro de 2018, no qual se incluem as descrições da Classificação da Atividade Económica (CAE), podemos rapidamente constatar três áreas de atuação predominantes: o comércio por grosso e a retalho e reparação de veículos, indústrias transformadoras e construção.

Contudo, não se podem descartar o conjunto de serviços que variam entre atividades de consultoria, atividades imobiliárias, atividades de saúde humana e apoio social e alojamento.

Corroborando este relatório, alusivo à zona do país com maior densidade de empresas familiares, no mercado bolsista português encontramos exemplos de empresas a atuarem nesses mesmos setores de maior relevância: Jerónimo Martins e Sonae- retalho; Mota-Engil- construção; Grupo Amorim- indústria transformadora.

 

Sucessão

Um dos maiores problemas destas empresas é a sucessão nas posições de liderança, independentemente do tamanho do negócio e da área em que estão inseridas. Esta questão está relacionada com o facto de os empresários não prepararem atempadamente a sua saída, pois não estão preparados para serem substituídos. Sendo assim, a empresa pode entrar numa crise financeira e não conseguir ultrapassar este problema.

De acordo com Lansberg (1999), nos EUA cerca de 70% das empresas familiares desaparecem antes da segunda geração e 88% antes da terceira geração. Num estudo recente, realizado pela PwC, podemos ler que “48% das empresas não têm nenhum plano de sucessão. (…) Um processo de sucessão bem gerido pode servir de ponto de convergência para uma empresa, permitindo-lhe reinventar-se em resposta a um cenário em evolução, encontrando novas energias direcionadas para o crescimento, diversificação e profissionalização”.

 

Planos de sucessão bem-sucedidos

Se analisarmos a realidade das empresas familiares em Portugal podemos encontrar alguns exemplos de casos de grandes empresas em que a sucessão do negócio foi bem conseguida.

A Sonae é um dos casos mais emblemáticos. O processo foi transparente e rigoroso, acompanhado pelo fundador da empresa, Belmiro de Azevedo. O empresário, numa primeira fase, decidiu deixar o cargo de executivo e, mais tarde, o de chairman (não executivo) do grupo. A sua escolha, em 2015, recaiu de forma natural sobre o seu filho Paulo de Azevedo, e Ângelo Paupério, que já tendo cargos na administração do grupo, passaram a ser co-CEO’s.

Porém ter versado sobre aqueles, a sucessão do grupo Sonae passará formalmente para as mãos de Cláudia Azevedo em 2019, assumindo o cargo executivo após a decisão do irmão e Ângelo Paupério determinarem adotar cargos não executivos após a conclusão do seu mandato quadrienal.

Nem sempre a sucessão acontece de pai para filho, pelo menos de imediato.

Na Jerónimo Martins este plano durou 5 anos. Inicialmente, Alexandre Soares dos Santos escolheu um gestor profissional, o administrador executivo Luís Palha da Silva, para assegurar a transição entre as duas gerações da família. Só mais tarde, depois da empresa estar preparada o suficiente, é que Pedro Soares dos Santos assumiu a presidência do grupo.

Por fim, outro caso pertinente é o do Grupo Amorim. Américo Amorim não preparou tão cuidadosamente a sucessão do seu lugar como nos exemplos supracitados. As suas filhas não foram preparadas para a liderança, mas foram desempenhando cargos no grupo. Contudo, depois da morte do empresário, a continuidade do negócio recaiu sobre as mesmas. Hoje em dia, Paula e Marta Amorim estão na Galp Energia e Luísa num projeto de produção de vinho do Grupo Amorim.

A iniciativa privada em Portugal é, infelizmente, um enorme risco inicial para o empresário e, felizmente, um motor da economia. Além do dever de serem criados mais estímulos de forma a promover que mais portugueses criem empreendimentos com elevado valor acrescentado, o acompanhamento ao longo dos primeiros anos de vida da empresa é essencial para que a ideia consiga ser implementada e o investimento recuperado.

Empresas como a Forall Phones, Raize e Science4You são exemplos de, talvez, futuras empresas familiares, que estão a alterar o paradigma do tecido empresarial nacional. Com a entrada das duas últimas na Euronext Lisbon- Science4You espera ingressar na Euronext Growth em menos de três semanas- deparamo-nos com uma “gestão moderna” em Portugal que tende a passar a ser dividia cada vez mais cedo entre mercados e empresário.

 

Research elaborado por Ana Rita Simões, António Raimundo, Joana Sousa, Miguel Duarte e Pedro Catarino.

Edição: Margarida Alves